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Ortodoxia Tradicional vs Conservadorismo Social

Atualizado: 22 de nov. de 2022

Por Subdiácono Nektarios, MA & Traduzido por Fabio L.

 

No cenário cristão ortodoxo de hoje, muitas vezes descobrimos que a maioria dos convertidos em nossas paróquias está fugindo de outras organizações religiosas, como as do protestantismo, seja reformado ou papal [catolicismo romano], devido ao grave declínio moral que ocorre dentro dessas organizações heterodoxas, tais como reconhecer os assim chamados casamentos homossexuais, introduzir mulheres nas fileiras do clero ou abraçar a nova ideologia herética “lacradora” que está se espalhando como câncer em todo o mundo ocidental. Esses buscadores e neófitos vêem na Igreja Ortodoxa um bastião do conservadorismo, um enclave da visão de mundo tradicional sendo rapidamente abandonada, se não completamente descartada, em suas próprias confissões.

Presidente Trump na Conferência de Ação Política Conservadora de 2021 (CPAC)

Muitas dessas pessoas bem-intencionadas e de mentalidade conservadora descobrem a Igreja Ortodoxa ou se tornam membros rapidamente por meio de um catecumenato muito rápido realizado por alguém do clero. Eles procuram uma Igreja que seja socialmente conservadora, e quando encontram o que pensam estar procurando dentro da Igreja Ortodoxa, em poucos meses são feitos catecúmenos e batizados ou recebidos rápida e indevidamente pelo Crisma. Muitas vezes isso ocorre sem a devida formação da pessoa e sem que se ajude esses neófitos a adquirirem um fronema ortodoxo. Sem essa mentalidade, eles são levados a acreditar que, por serem social ou politicamente conservadores e estarem dentro da Igreja Ortodoxa, eles também são agora cristãos ortodoxos de mentalidade tradicional. No entanto, não é esse o caso.


O conservadorismo político-social e o cristianismo ortodoxo tradicional são em certo sentido semelhantes, mas também diametralmente opostos um ao outro. Na doutrina e prática da Igreja Ortodoxa, você descobrirá que a Igreja é contra muitas das mesmas coisas que aqueles que são social e politicamente conservadores são contra, como ser contra o assim chamado casamento homossexual, o aborto, a cultura da lacração, o transumanismo, a degeneração sexual descontrolada da sociedade moderna e assim por diante. No entanto, ser contra esses temas faria de alguém um cristão ortodoxo tradicional?


Sua Graça Bispo Lucas de Siracusa, Abade do Monastério da Santíssima Trindade em Jordanville, Nova York, pode ser citado tendo dito, “muitas pessoas que estão satisfeitas em [serem] conservadoras não querem ter nada a ver com ser tradicionais, porque é muito estranho para elas, mas você não pode ter Ortodoxia sem tradicionalismo”. [1] Isso nos leva à pergunta: qual é a diferença entre um conservador social ou político na Igreja Ortodoxa versus um cristão ortodoxo que tem um fronema ortodoxo tradicional? A resposta não se resume ao que eles têm em comum ou não no reino das ideias, mas como eles vivem suas vidas dentro da Santa Ortodoxia. Quase invariavelmente, o conservador social e o cristão ortodoxo tradicional acreditarão na mesma coisa sobre aborto, transgenerismo, casamento gay e a chamada cultura lacradora em geral, mas viverão uma vida totalmente diferente uma da outra.

Sua Graça + Bispo Lucas de Siracusa

Os conservadores sociais a que nos referimos aqui muitas vezes nunca romperão com seus velhos hábitos de suas confissões anteriores e não mergulharão na vida da Igreja Ortodoxa ou, mais importante, na mente dos Santos e Pais da Igreja. Eles podem ir à igreja apenas aos domingos, já que é isso que todos os conservadores fazem em outros lugares; eles freqüentemente ignoram as tradições da Igreja, como aspectos de jejum, confissão e comunhão freqüentes, modéstia no vestir (ou seja, usar minissaias, shorts ou andar descalço), incluindo mulheres que usam cobertura para a cabeça na Igreja; eles freqüentemente desconsiderarão os anciãos contemporâneos da Igreja e os santos contemporâneos e nunca visitarão mosteiros para se aprofundar na vida espiritual. Há uma espécie de estado de espírito moralista de que defender a mesma agenda conservadora social e politicamente e ir à Igreja uma vez por semana é o que significa ser um cristão ortodoxo.


Freqüentemente, há uma obsessão política pela qual conseguem te contar sobre todos os eventos atuais dos últimos desenvolvimentos políticos ou quem disse o que na Fox News ou na CNN, mas não podem te dizer quem são os santos do dia, ou mesmo muito sobre os santos, mesmo os contemporâneos. O Abençoado Metropolita Filareto de Nova York diz para “perguntar a eles [...] os principais dogmas da fé cristã, ou nomear os doze apóstolos de Cristo (pessoas que fizeram imensamente mais pela humanidade do que qualquer czar ou escritor) e em nove de dez casos, o resultado será lamentável. Pior ainda é o fato de que ninguém considera essa ignorância uma vergonha e as pessoas até a admitem despreocupadamente.” [2]


Isso nos leva a tentar entender o que é um cristão ortodoxo tradicional e quem está vivendo com um verdadeiro fronema ortodoxo. No entanto, “antes de prosseguir, deve estar claramente estabelecido em nossas mentes que os Pais da Igreja, aqueles sábios e santos mestres da fé ortodoxa, não são o produto de alguma época passada; eles não são uma coisa do passado. [3] É por aqui que devemos começar com o fim de adquirir o verdadeiro fronema ortodoxo que vem de viver de acordo com a Santa Tradição, e é a própria vida do Espírito Santo na Igreja. Devemos olhar para os Pais da Igreja, mas não apenas para os Pais do primeiro milênio ou para certos grupos de Pais da Igreja. Em vez disso, antes de tudo, olhamos para os santos e santos pais que estão vivendo ou viveram em nosso tempo contemporâneo e lidaram com nossas questões contemporâneas, seguindo os santos pais antes deles.


São Gregório Palamas sobre este mesmo assunto diz:

Se de uma lâmpada acesa alguém acender outra, depois outra daquela, e assim sucessivamente, ele terá a luz continuamente. Da mesma forma, através dos Apóstolos ordenando seus sucessores, e estes sucessores ordenando outros, e assim por diante, a graça do Espírito Santo é transmitida através de todas as gerações e ilumina todos os que obedecem a seus pastores e mestres.

O cristão ortodoxo tradicional não é simplesmente aquele que vive moralmente e mantém as posições corretas nas questões morais e políticas contemporâneas. Pelo contrário, é alguém que se aprofunda na vida da Igreja, nos escritos dos Padres da Igreja e na vida dos Santos, e procura sempre aprofundar a vida espiritual, sempre arrependido, sempre desejando um maior conhecimento de si mesmo, sempre suplicando a Deus que ilumine suas trevas. Mesmo buscando ou mesmo falando "a palavra profética" da verdade para sua geração, ele nunca deixa de se colocar "escatologicamente", isto é, com sua mente diante do fim de todas as coisas, à direita de Deus, onde Cristo, seu Senhor, está vestido em Sua natureza humana, aguardando a consumação de todas as coisas - o cumprimento da Economia Divina, a Ressurreição e o Julgamento de todos, o novo céu e a nova terra.


O Abençoado Filareto de Nova York, em sua homilia “A obrigação cristã de conhecer a Deus”, afirma: “Se nossa primeira e básica obrigação para com Deus é amá-Lo, segue-se naturalmente que devemos conhecê-Lo. O homem não vai e não tem como amar alguém que não conheça. Devemos observar que a necessidade de conhecer a Deus é uma das menos cumpridas de nossas obrigações. Quão diferente era nos tempos antigos, quando o interesse por assuntos teológicos e conhecimento religioso era profundamente sentido pelas almas ortodoxas. [4] Portanto, embora alguém possa ser social e politicamente conservador e não conhecer ou amar a Deus, não pode ser um cristão ortodoxo se não O conhecer. E, se conhecer a Deus é amá-lo, pois Ele é Amor, achar que o fronema e a vida ortodoxa são sinônimos de uma visão de mundo politica e moralmente correta poder ser na verdade um testemunho da ausência em nós de um ethos e caminho ortodoxos de ascese e nos quais aceitamos carregar nossa cruz.

"Você é ortodoxo em todas as coisas?" - São Filareto de Nova York

Os cristãos ortodoxos tradicionais tentam viver da mesma maneira que os santos, eles se esforçam para ler os escritos e as vidas dos Santos Padres, para mergulhar na teologia da Igreja, aderir aos cânones sagrados, fazer visitas frequentes ao Mosteiros Sagrados para serem inspirados e guiados pelos monásticos que são "luzes para os leigos". Os cristãos ortodoxos de mentalidade tradicional procuram pais espirituais com discernimento para guiá-los no caminho, e eles têm uma regra de oração de seu pai espiritual, muitas vezes incluindo prostrações e, o mais importante, eles mergulham nos ofícios divinos o máximo possível, sabendo que apenas ir na Igreja no domingo não é suficiente para fazer progresso espiritual na vida cristã ortodoxa. Vivendo assim, eles sabem profundamente que aderir ao conservadorismo social não é o mesmo que ser um cristão ortodoxo tradicional.


O metropolita Filareto de Nova York pergunta: “Você é ortodoxo em todas as coisas? Se você se considera ortodoxo e está convencido de que é ortodoxo, então o triunfo da ortodoxia é o seu triunfo. Você ainda deve se esforçar, no entanto, para que o nome Ortodoxo que foi aplicado a você corresponda à realidade”, que você adquira o fronema ortodoxo e viva de acordo com a Santa Tradição da Igreja Ortodoxa. [5]

 

Bibliografia


[1]. Bishop Luke of Syracuse, “The Ethos of the Russian Monastics of Holy Trinity Monastery, Jordanville, NY.” Orthodox Ethos, November 13, 2022, https://www.orthodoxethos.com/oe-video-library


[2]. Metropolitan Philaret of New York, Living According to God’s Will (Jordanville: Holy Trinity Monastery, 2021), 124.


[3]. Protopresbyter Theodoros Zisis, Following the Holy Fathers: Timeless Guides of Authentic Christianity (Columbia: Newrome Press, 2017), 1.


[4]. Metropolitan Philaret of New York, Living According to God’s Will (Jordanville: Holy Trinity Monastery, 2021), 123.


[5]. Metropolitan Philaret of New York, “Triumph of Orthodoxy,” in Metropolitan Philaret of New York: Zealous Confessor of the Faith, ed. Subdeacon Nektarios Harrison (Florence: Uncut Mountain Press, 2022), 143.



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